terça-feira, 13 de setembro de 2011

SAÍDA



Um homem e uma mulher correm de um lado para o outro. Correm cada vez mais rápido. Correm sem rumo até chegar a exaustão, param de frente um com o outro ofegantes, sem forças, se olham com cuidado. Vão desacelerando a respiração e os olhos se encontram como que atraídos por um imã. Riem. Choram. Gritam. Se abraçam. Se afastam. Se afastam. Congelam.

ELA: Você aqui?

ELE: Eu! Assustou?

ELA: Não! Mas fiquei surpresa.

ELE: Você pode falar?

ELA: Falar? Eu não sabia que você queria falar comigo.

ELE: Muita coisa você não sabe sobre mim.

ELA: Acha memso que naõ sei?

(Silêncio)

ELE: Quer falar comigo?

ELA: Eu? Nunca fugi de você.

(Correm novamente por todo o palco)

ELE: Sim! Eu sei!

ELA: Mas eu estou bem.

ELE: Só isso.

ELA: O que mais?

ELE: Olha! (Mostra pra ela a mão esquerda. Param de correr.)

ELA: O que?

ELE: Sumiu!

ELA: Sumiu? Não entendi.

ELE: A marca. Lembra da marca que tinha por causa do sol.

ELA: (olhando a própria mão esquerda) Verdade! Sumiu! Eu... Bem!... Eu não tinha reparado.

ELE: Não sente falta?

ELA: Sinto... Sentia... Era um vazio que me ensurdecia.

ELE: Mas ainda sente? Não sente?

ELA: Não! Não sinto! Foi tanta falta... Tantos momentos sem ter com quem dividir mesmo com você ali... Pra falar a verdade nem percebi que não existe mais... A marca!

ELE: Eu sinto falta. Acho que sinto...

ELA: Acha? Por que? Não foi melhor ficar sem nenhuma marca.

ELE: E quem disse que fiquei sem nenhuma marca?

(Correm em câmera lenta. Gestos pesados e bem desenhados. Uma fuga lenta)

ELA: Vai embora!

ELE: Eu já fui. Já foi... Fomos... Esqueceu?

ELA: Não brinca com essas coisas. Não brinque mais comigo. Não! Não! Não!

ELE: Não estou brincando. Nunca brinquei. Nunca iludi e nem prometi nada que não pudesse cumprir. Só não fui capaz de perceber...

ELA: (Correm rápido e ele corre atrás dela) Não fala mais nada. É bom culpar o outro pela sua incapacidade de assumir o que sente.

ELE: Não aguenta ouvir a verdade? Soube muito bem como fazer com que eu perdesse o rumo da saída. Trouxe palavras no olhar que só eu pude ler. E agora foge! Foge! Foge! E eu? Diz! Eu corro! Corro! Corro... Pra você!

ELA: Não é verdade! Fui eu quem correu atrás de você. Te tocava com os olhos... Imaginava ... Sonhava... Queria incansavelmente tudo... E nunca ...

(Param de correr)

ELE: Nunca...

ELA: Disse o que queria.

ELE: Disse sim! Repetiu, blasfemou, iludiu, enganou, massacrou, pisou... Mas amou... amou... amou muito! Sim! Você não pode negar que amou... Pode?

ELA: Não...

ELE: Quebramos!

ELA: Estilhaçamos um ao outro. Eu pensei que seria fácil. Suportei demais...

ELE: Sabia que não seria... Sabia que não podíamos... Sabia ... E mesmo assim quis. Insistiu... Mas não foi capaz. Desistiu!

ELA: Eu tentei. Não sabe como tentei. Tentei sumir... Correr... Me esconder de tudo. Tentei não te ver... Tentei me anular pra poder continuar... Gestos tão sutis. Conheço cada significado deles. Nunca desisti. Fingi!

ELE: Você não teve força... Esperou de mim. Eu te dei tudo. Eu joguei pro ar tudo... Todos... Muito... Minha vida revirada... E você?

ELA: Não acreditei no seu silêncio. Era um abismo que me fazia ter medo. Muito medo. Não podia esperar mais. Eu queria ouvir da sua boca. Mas nada...

ELE: Eu dizia aos gritos em meu silêncio e você ouvia. Sabe o que eu dizia. Sentia o meu desespero... Só com você era transparente... Eu esperei. Esperei tanto... O que seria pra nós dois mais um pouco? Tão pouco. E agora... Por que desistiu assim? O que eu te fiz?

ELA: Nada! Sempre o nada que vinha de você. Eu queria mais que esse vazio. Essa incerteza que ao mesmo tempo é tão certa.
(Silêncio)

(Relógio e coração se confundem em um único som.)

ELE: Não tem saída!

ELA: A saída é essa.

ELE: Não consigo.

ELA: Quem disse que vamos conseguir?

ELE: Não posso!

ELA: É só querer...

(ELE e ELA se procuram sem se tocar. Os movimentos se confundem a uma valsa descompassada. Ambos se confundem com a ausência do toque. Com a busca pelo outro.)

ELE: É a saída. Pode perceber?

ELA: Sim. A entrada e a saída podem ter o mesmo significado... Podem ser uma só!

ELE: Nós escolhemos.

ELA: Esperar?

ELE: Fica.

ELA: Vai.

ELE: Vou?

ELA: Dizem que as pessoas já sabem com quem vão se encontrar antes de nascer.

ELE: Dizem que não existe antes e nem depois...

ELA: Mas eu sempre soube que ia te encontrar... Por isso acredito que exista o antes e depois...
ELE: Eu acho que existe o agora.

ELA: E quando tudo conspira pra que o encontro aconteça, mas que as pessoas não possam realmente se encontrar? Só resta o depois. Esperar...

ELE: Esperar o talvez... Parece ser mais fácil.

ELA: (Ri) Você fala de um jeito... Fica até engraçado.

ELE: Você ri de um jeito tão único... Tenho que te falar uma coisa.

ELA: Diga!

ELE: Não gosto da solidão.

ELA: Mas por que vive nela? Você escolheu por ela.

ELE: O que vou fazer se tiver que continuar assim?

ELA: Alguma coisa pra passar o tempo, esquecer, começar de novo... Você mesmo disse que não podemos. Por que insiste em me deixar assim. (Corre) Não acho a saída. Se é essa a saída... Me mostre! Me prove que é melhor. Prove! Prove e eu aceito.

ELE: Eu não sei!

ELA: Não sabe?

ELE: Nunca tive certeza ...

ELA: Eu sempre tive certeza. A certeza desse encontro... Por isso estou aqui ainda. Você mesmo sabe que não tem jeito.

(Se olham com paixão descontrolada. Ele se aproxima dela e se beijam longamente.)

ELE: Seu gosto.

ELA: Seu cheiro.

ELE: Seu...

ELA: Meu...

ELE: Não existe saída.

ELA: Tá tudo aqui dentro. Sem ter como sair.

ELE: Sem nenhuma saída.

ELA: Vai! Corre!

( Risos intensos. Correm muito... muito... muito... Muitos risos. Os risos e a corrida vão dando lugar ao silêncio. Pausa. Black out)



Um comentário:

  1. Lindo Paloma, intenso, confuso, solitária como qualquer relacionamento. Gosto de seus texto!

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